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Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Sophia de
Mello Breyner Andressen
Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da “Távola Redonda”, in
PÚBLICO, Mil Folhas, 10 de Agosto de 2002
Há uma
beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos
animais, dos movimentos e das pessoas.
Mas há também uma outra
beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é
o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham.
A
beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um
enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um
princípio de educação e de alegria.
Diz S. Tomás de Aquino que a
beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da
obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e
dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se
reconhece.
Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades
de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu
nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias
as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à
regra de fealdade são raras.
Costuma dizer-se que a nossa pobreza é
a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da
nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo
exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura
e sem sensibilidade.
Isto é especialmente triste quando comparamos o
presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra
e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem
riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas.
Agora
não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma
arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e
imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é
necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a
que chamamos cultura. Somos um país antigo.
Dizem-nos que somos um país pobre. E estranho que destas coordenadas
resulte uma arquitectura de novos ricos.
A construção da cidade
moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e
de circulação. Mas entre nós estes; problemas só existem em Lisboa e
no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente
problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja
problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura.
A
regra a seguir é esta: uma casa para todos É beleza para todos. E a
beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que
quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é
simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da
cultura e da dignidade do que do dinheiro.
Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas
praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz
claríssima. E preciso não destruir estas coisas. É preciso que
aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.
A arte
é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia.
A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com
a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má
arquitectura.
Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve.
Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que
vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as
condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura:
ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali
encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos
uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna,
uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver
duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que
facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade.
Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura
do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que
existem no nosso país.
Mas é urgente evitar os seguintes perigos:
- A incompetência;
- O saloísmo;
- As especulações com os terrenos;
- Os maus arquitectos;
- O falso tradicionalismo;
- A mania do luxo e da pompa;
- As obras
de fachada.
Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a
arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à
vida. Aqueles que não amam nem espaço, nem a sombra, nem a luz, nem
o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar
boa arquitectura.
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A regra a seguir é esta:
uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não
é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que
quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A
beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que
dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do
dinheiro. |
Sophia
de Mello
Breyner Andressen - Cronologia
1919
– Nasce a 6 de Novembro no Porto, onde passou a infância. Aos 3
anos, tem o primeiro contacto com a poesia, quando uma criada lhe
recita A Nau Catrineta. Mesmo antes de aprender a ler,
o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero.1926 – Frequenta o
Colégio do Sagrado Coração de Maria, no Porto, até aos 17 anos. Tem
professores marcantes como a D. Carolina (de Português). E, apesar
da pouca estima por disciplinas como Matemática e Química, nunca
chumbou. Aos doze anos escreve os primeiros poemas. Entre os 16 e os
23 tem uma fase excepcionalmente fértil na sua produção poética.
1936 – Estuda Filologia Clássica, na Faculdade de Letras de
Lisboa, mas não leva a licenciatura até ao fim. Três anos depois,
regressa ao Porto, onde vive até casar com Francisco Sousa Tavares,
altura em que se muda para Lisboa. Tem cinco filhos. 1944 –
Publica o primeiro livro, Poesia, uma edição de autor de 300
exemplares, paga pelo pai, que sairia em Coimbra por diligência de
um amigo: Fernando Vale. Em 1975 seria reeditado pela Ática. Este
livro é uma escolha, que integra alguns poemas escritos com
14 anos. Publicaria também ficção, literatura para crianças e
traduziu, nomeadamente, Dante e Shakespeare. 1947 – O Dia
do Mar, Ática. 1950 – Coral, Livraria Simões
Lopes. 1954 – No Tempo Dividido, Guimarães. 1956
– O Rapaz de Bronze (literatura infantil), Minotauro.
1958 – Mar Novo, Guimarães; A Menina do Mar
(infantil), Figueirinhas; A Fada Oriana
(infantil), Figueirinhas. Escreve um ensaio sobre Cecília Meireles
na «Cidade Nova». 1960 – Noite de Natal (infantil),
Ática. Publica o ensaio Poesia e Realidade, na «Colóquio 8».
1961 – O Cristo Cigano, Minotauro. 1962 – Livro
Sexto, Salamandra - Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de
Escritores, em 1964; Contos Exemplares (ficção),
Figueirinhas. 1964 – O Cavaleiro da Dinamarca
(infantil), Figueirinhas. 1967 – Geografia,
Ática 1968 – A Floresta (infantil), Figueirinhas;
Antologia, Portugália, cuja 5ª edição (1985 – Figueirinhas) é
prefaciada por Eduardo Lourenço. 1970 – Grades, D.
Quixote. 1972 – Dual, Moraes. 1975 – Publica o
ensaio O Nu na Antiguidade Clássica, integrado em O Nu e a
Arte, uma edição dos Estúdios Cor. Deputada pelo Partido
Socialista à Assembleia Constituinte. A sua actividade
político-partidária, não foi longa, mas ao longo da sua vida sempre
foi uma lutadora empenhada pelas causas da liberdade e justiça.
Antes do 25 de Abril, pertence mesmo à Comissão Nacional de
Apoio aos Presos Políticos. 1977 – O Nome das Coisas,
Moraes - Prémio Teixeira de Pascoaes. 1983 – Navegações
(IN-CM) - Prémio da Crítica do Centro Português da Associação de
Críticos Literários. 1984 – Histórias da Terra e do Mar
(ficção), Salamandra. 1985 – Árvore (infantil),
Figueirinhas. 1989 – Ilhas, Texto - Prémios D. Dinis,
da Fundação Casa de Mateus e Inasset-INAPA (1990) 1990
– Reúne toda a sua obra em três Volumes, Obra Poética, com a
chancela da Editorial Caminho - Grande Prémio de Poesia Pen
Clube. 1992 – Grande Prémio Calouste Gulbenkian
de Literatura para Crianças. 1994 – Musa, Caminho -
Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
Publica Signo, um livro/disco com poemas lidos por Luís
Miguel Sintra, uma edição Presença/Casa Fernando Pessoa. 1995
– Placa de Honra do Prémio Petrarca, atribuída em Itália.
1996 – Homenageada do Carrefour des Littératures, na IV
Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia. 1998 – O
Búzio de Cós, Caminho - Prémio da Fundação Luís Míguel Nava.
1999 – Prémio Camões.
Extraído de JL, 16.06.1999. |